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Fundado por José Carlos Tallarico

O poema que o vento escreve

Crônicas dos dias, contos dos instantes, poesias dos momentos — e a vida vai se fazendo em profunda louvação. No sorriso radiante, a face da alma; na chuva, o milagre que faz florir. Na palma da mão, as escritas de um livro — talvez um romance celestial. A bondade humana se faz humana em versos de raízes profundas. O terreno é fértil, e a paisagem, exuberante. Aquela manhã era admirável, e o pôr do sol, de uma beleza quase divina. Assim seguiu o dia, maravilhando-se consigo mesmo.

Era um livro aberto ao tempo, talvez à espera do vento — não sei, não me pergunte o porquê. O que está escrito nas páginas do tempo talvez seja o grande segredo a ser decifrado. Mas, e se o tempo for um grande poema? E se o poeta for o vento? Era uma manhã repleta de delírios e acontecimentos inusitados. Talvez não fosse nada disso, talvez fosse apenas delírio — mas também a pura verdade que o sonho às vezes revela.

Um manifesto ambulante pela vida. Um sonho errante nas planícies douradas de um sol que fazia poesia das agruras humanas. A estrada é longa, e a próxima curva está a dois versos da próxima poesia. Os dias que passaram ao sopro do vento carregaram as dores do tempo, expostas ao ar livre para respirarem novos versos.

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Tudo era leitura: as vírgulas entre os momentos, os parágrafos de uma existência feita de sonhos e humanidade. O dia se encerrava num abraço repleto de desejo e ansiedade, à espera do próximo instante de aventura de uma poesia errante. Os olhos marejados fitavam uma imagem emoldurada pelo fluxo de sentimentos que tomava todo o ambiente, perpetuando a saudade.

Antes, porém, era preciso um pouco mais de tudo o que faz bem — a água que sacia a sede da vida e o tormento dos dias fora de um verso. Suavemente, a sonoridade dos momentos se amplificava entre o silêncio e a escuta. As plantas nasciam sobre a pedra, e um riozinho corria ao longe, nas encostas da mata. O céu e as mãos se tocavam. A cidade, ainda escura, contrastava com as alamedas todas floridas.

A terra árida, a vegetação rasteira, a nuvem que quase chove. O último e o primeiro, e as flores que brotam nos jardins de pedra. A vida exalava sonhos, e mais um dia se fazia manhã — um pouco claro, meio azulado, com o horizonte desejando estar mais próximo das nuvens.

As noites estavam cheias de alguma coisa que apenas o escuro sabia dizer. O que esperar do mundo? E como nos situamos diante de tantas mudanças e transformações? Entre o real e o irreal, o concreto e o abstrato, o objetivo e o subjetivo, o mundo político revelava segredos incrustados no subterrâneo da existência. Seria tudo um jogo? Talvez a realidade fosse mesmo essa: moscas sobrevoando templos abandonados, num jogo de todos contra todos.

Ainda assim, havia leveza nos fluidos do pensamento, e um resto de sentimento nos dias de outono. Tardes de vento, noites de luar, lágrimas e olhares acanhados. O silêncio contemplava o pouco que restava do dia. Chorava-se, e depois caminhava-se sobre o chão molhado, guardando os sentimentos em tardes de outono.

As vozes do tempo se misturavam ao barulho do vento. As mãos queriam se tocar, mesmo entre as distâncias. A face surgia entre flores, depois da primavera. O céu azul e o sol aqueciam as ausências dos dias de outono.

O dia ainda nem pensava em acabar. O sentimento inundava todo aquele silêncio. Por mais que quisesse chorar, as lágrimas pareciam distantes, e a noite já não afagava o luar. Mesmo assim, os sentimentos embalavam os instantes que restavam.

Do outro lado, tudo agora parecia deserto. A sutileza dos instantes e a leveza sublime de um tempo persistente faziam de cada momento uma flor depois do vento — e de cada lembrança, um delírio entre dores. As luzes se apagavam nas pálidas faces do sorriso.

Talvez fosse delírio, ou alguma alucinação passageira. Ainda assim, acolhe em si o ser que te alimenta. Acorda o sorriso, mesmo nas manhãs nubladas. Se for poesia, que os versos te segurem pelas mãos para juntos seguirem o sol, mesmo nos caminhos tortuosos. E que ao longo da jornada, entre passos incertos, novos olhares encontrem o fluido da esperança — nutrindo, outra vez, os versos da poesia da vida.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: O sol nas margens da noite e A pele do vento

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