As partículas do pensamento despertam, e o sentimento amanhece para ver o sol mesmo nos dias de chuva — como quem busca, no meio da tormenta, o arco-íris de que falou Neruda. Penso — e logo o sentimento vem — transformando os dias em memoráveis instantes. Ali, na esquina entre pensamento e emoção, a completude dos longos dias se condensa em sublimes momentos.
Conta-me uma história para adormecer a noite. Escreve nos muros do tempo versos que, em segundos, digam que a poesia tem sabor de gente, como queria Cora Coralina. Não, ninguém está só — “há um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1). Tudo é. Tudo está. É uma epopeia de sonhos cavalgando pelos prados da vida, como Dom Quixote perseguindo moinhos de ventos que só ele sabia ver.
As águas do rio profundo levam, ao longe, barcos a velejar saudades, ancorando em corações repletos de afeto e ternura. Ainda distante, o horizonte escreve poesia ao sol; e nos céus há uma sublimidade que lembra a “música das esferas” de Pitágoras, suavemente embebida de sentimentos, compondo os dias em pequenas pílulas de plenitude.
Gosto de escrever. No quintal do imaginário — esse quintal de Manoel de Barros onde as palavras são sementes — semeio frases; depois, as flores vêm. Depois de algum tempo — um tempo qualquer — nascem no meu quintal. Um tempo para pensar, um tempo para refazer-me. Gosto dos dias de chuva: eles não apagam meus pensamentos nem encharcam minha alma.
Há um sentimento plantado no meu quintal, cercado de flores, onde o silêncio repousa em plenitude. Escrevo entre pétalas, sob os olhares atentos dos espinhos.
Às vezes eles me incomodam, mas não roubam minha tranquilidade. Minha paciência preenche os momentos e prolonga os instantes. Ali, quase ao alcance das mãos, vejo o meu dia inteiro repousar num pouquinho de mim, sonhando com o que está por vir.
Gosto de escrever — mesmo quando é preciso falar da noite, no escuro do olhar. Mas logo o sol retorna, e a poesia floresce. No meu quintal, a terra é fértil; a imaginação dorme, esperando a próxima estação. Parto à procura de algo mais — não sei bem o quê. Talvez tenha me perdido, em meu próprio pensamento. Meu eu se afastou e meu ser se extasiou. Ele se embrenhou em estranhos sentimentos e deixou a solidão em silêncio, num dia qualquer. E num dia qualquer, qualquer coisa pode acontecer.
No meu quintal, a vida floresce na singeleza. A vida… o que é a vida? Calderón diria que “a vida é sonho”; Shakespeare, que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”; Clarice, que “a vida é um sopro”. Olha… o dia já amanheceu, e logo vem à tarde, e anoitece outra vez. De repente a felicidade nos invade e, tão de repente, vai embora — como na canção de Vinícius e Toquinho, que fala dos encontros e desencontros.
No meio do caminho tinha uma pedra, lembra o poeta Drummond. Mas no meio do caminho poderia haver outro caminho, e outro, e outro — e, assim, de caminho em caminho, chegaríamos ao finito do infinito. Mas o infinito é infinitamente infinito, como imaginava Borges.
Um dia, a vida sonhou depois de uma longa noite de sono. Como nascem os versos? Onde estão as raízes da poesia? E o mundo, fugindo da realidade, se esconde entre ilusões e pesadelos — como o absurdo de Camus, que nos desafia a encontrar sentido. É assim. Penso e acredito que o sentido da vida está em nós — em darmos e acreditarmos em nós mesmos.
Assim rolam as pedras, germinam as sementes e desabrocham as flores sob o sol. Podemos ser pedras que se desgastam no encontro com nós mesmos, na busca por algo que dê sentido à vida. O mundo nos oferece caminhos que, às vezes, nos apequenam. Mas, no meu quintal, planta-se sonho ao sabor das utopias, para colher esperança e iluminar o caminhar.
Luiz Carlos de Proença – Autor do livro: O sol nas margens da noite e A pele do vento