Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Carta ao sentimento (com amor e ternura, meu Pai)

Nas entrelinhas do silêncio, havia uma brisa suave em cada amanhecer. Um canto melodioso caía com as tardes, sob a miragem do olhar. E no olhar, os infinitos se cruzavam em diferentes perspectivas, como se cada um contemplasse, à sua maneira, o milagre da vida. Mãos invisíveis afagavam os corações que sabiam amar abundantemente. Pai. Amor. Paz. Paz para os dias que virão. Pai nos dias de sempre. E para sempre o sempre será presente. Em um instante qualquer, nascia esta carta — endereçada ao sentimento, escrita com amor e ternura, meu pai.

Os versos escorriam pelas fendas do tempo. Pelas frestas do infinito, fluíam sentimentos em êxtase constante. Entre lágrimas, havia o sorriso das manhãs que ainda vivem em mim. Os dias de sol e os dias nublados carregavam, cada um à sua maneira, a sublimidade dos momentos vividos. E havia um horizonte por entre os versos em pranto, como um afago silencioso nas faces da poesia. Assim se escrevia, uma vez mais, esta carta ao sentimento com amor e ternura, meu pai.

As noites, silenciosamente, compunham os seus próprios versos e os declamavam à lua. Certa manhã amanheceu uma carta repleta de singeleza. Era uma carta endereçada ao infinito, escrita com a dedicação de um amor eterno. Mas havia algo de especial nas palavras que preenchiam o branco da folha: elas carregavam uma memória vívida, como se a própria folha respirasse lembrança. Não era apenas uma carta — era a presença do afeto.

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“Amor eterno.“ Essas palavras repetiam-se entre as linhas, tecendo uma aura de ternura em torno de cada frase. Havia um sentimento difícil de traduzir. Algo que tocava de maneira sutil, quase imperceptível. Um toque que não dependia de manhãs, tardes ou noites. O tempo, ali, não fazia diferença. Tudo era presença. Tudo era sentimento, meu pai. E amor.

O rio, as águas e o céu pareciam conspirar para consagrar as manhãs vividas sob a proteção do teu amor. O horizonte, esse velho escriba dos dias, tecia destinos, escrevia crônicas, compunha versos na plenitude poética da existência. Talvez fosse noite, talvez não. Mas isso já não importava, porque o amanhã sempre vinha como promessa. Promessa de novos versos renascendo em outras poesias. E assim, mais uma vez, a carta se escrevia ao sentimento, com amor e ternura, meu pai.

Um barco aportava no mar estrelado, velejando a lua nas profundezas das infinitas buscas. Entre os livros, havia a intimidade das páginas vividas, o renascimento em cada odisseia. E nas epopeias nômades da memória, os dias voltavam a amanhecer. Ainda havia céu refletido nos olhos que insistem em contemplar a beleza que se humaniza. Tudo isso cabia — inteiro — nesta carta ao sentimento com amor e ternura, meu pai.

Às vezes as noites são escuras. Às vezes são apenas isso: escuras. Mas tua imagem, eternizada na mente e no coração, renasce nos pensamentos, nos gestos, nos silêncios. E em meio ao vazio, uma mensagem ressoa, como um sussurro da tua presença: “Viva intensamente. Vale a pena cada sonho sonhado.“. Assim floresce, de novo, esta carta ao sentimento com amor e ternura, meu pai.

Minha mente, ao longe, voa. Deslumbra um novo olhar sob paisagens de jardins floridos. O tempo, esse enigma que nos escapa, não comporta questionamentos — nem mesmo sobre os momentos que passaram depressa demais. Ficaram os vestígios, as marcas com sabor e essência de saudade. Talvez exista um momento em que o próprio tempo se esqueça de ser senhor de si. E então, nas manhãs, um café com saudade e os raios de sol pousam suavemente sobre esta carta ao sentimento com amor e ternura, meu pai.

O amor se derrama em versos e canções, entre o que já se foi e o que ainda será. As mãos afagam rostos nas tardes em que o vento sopra leve, quase sagrado. Em certos momentos, há tanto a ser dito — mas o silêncio fala por tudo aquilo que passou despercebido. E em cada uma dessas passagens, floresce a lembrança poética de uma carta ao sentimento com amor e ternura, meu pai.

E agora, Pai, como eu termino este texto? Não há resposta no ar, no vento, em nenhum pensamento. E a poesia, o que diz? Talvez ela diga que a resposta está no silêncio — um silêncio que se nutre de si mesmo e se refaz a cada amanhecer. E nesse refazer, a poesia encontra o mais profundo e digno dos sentimentos: o amor. Sobre tudo o que é belo e sagrado. Sobre tudo o que é humano — profundamente humano. O amor incondicional, que nos faz ser quem somos.

Luiz Carlos de Proença – Autor do livro: O sol nas margens da noite e A pele do vento

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