“Há almas tão doentes e voltadas para as coisas exteriores que não têm remédio nem parece que possam penetrar em si mesmas, pois, já se acostumaram tanto a lidar com os parasitas e as feras que estão em torno do castelo, que já se assemelham a elas.”
Demorei para redigir este texto. Na verdade, achei complicado escrever sobre as “Sete moradas”, de Santa Teresa D’Ávila, diante da profundidade do tema, da beleza ímpar da obra. A leitura se mostrou mais do que interessante (inebriante mesmo), parecia que ia desvelando um mundo espiritual, um tesouro escondido há muito guardado, apresentado para aqueles que o desejem conhecer.
Santa Teresa revela que a porta de entrada para o castelo é a oração, a conversão, a mudança de vida, o desejo de estar próximo do Senhor. Sem este ponto de partida não será possível entrar nas outras moradas. O mais curioso é que ela não se achava digna de escrever sobre o tema, mas, foi convocada para esta tarefa, para dar o conhecimento às irmãs Carmelitas, que vivem enclausuradas. E, para este trabalho, ela recorreu, em todos os momentos, ao Espírito Santo.
Veja que a santa, em sua simplicidade e humildade, jamais imaginara que sua obra seria conhecida por muitos no futuro, que receberia o título de Doutora da Igreja, diante da magnitude de seu trabalho.
Para essa jornada espiritual é fundamental a decisão de se decidir por Deus, de desejar estar em Sua Presença, trabalhar pela virtude, pelo bem. Esse é o caminho para entrar na primeira das sete moradas, é o portal de entrada na vida espiritual.
Teresa compara a nossa alma como sendo o lar de Deus. Ela usa o recurso da metáfora do castelo, das moradas, que representam a jornada espiritual que fazemos na medida em que nos aproximamos mais e mais de Deus, em que avançamos na fé, na oração, nas ações no bem. Ela se refere a Deus como “Sua Majestade”, como “Rei”, que nos aguarda no palácio escondido em nosso interior (última morada).
Somos conduzidos às moradas diante da mudança de comportamento, do desejo por ouvir o Senhor, na quietude, no silêncio, na oração interior. Mas a santa deixa claro que não somos nós quem entramos nessas moradas, mas sim que somos conduzidos por Cristo para cada uma delas, como um lindo e precioso presente.
Ela ensina que nas primeiras moradas não chega quase nada da luz de Deus, pois a alma está de certa forma escurecida que não consegue enxergar quem se encontra nela. Também explica que diante de tantas coisas ruins que já entraram nessa morada, como: “cobras, víboras e coisas peçonhentas”, a pessoa já não consegue perceber a luz do Senhor.
“Assim me parece que deva ser uma alma que, embora não esteja em mal estado, vive tão imersa e tão mergulhada nas riquezas e negócios, como venho dizendo, que por mais que desejem de verdade enxergar e desfrutar de sua beleza não conseguem desvencilhar de tantos impedimentos.”
Interessante também o que Teresa revela sobre a pessoa que avança para as moradas, em que a característica principal é a humildade, o desprendimento e, acima de tudo, de agir na caridade. E que aquele que julga estar nas últimas moradas certamente não se encontra nelas, pois quem é verdadeiramente humilde jamais se achará merecedor de tão grande graça, nem falará aos outros sobre isso. Ela reflete de forma contundente sobre o pecado da soberba, que é sinal do afastamento de Deus.
Ensina que desconhecemos o que há no interior de nosso castelo, e, se não entramos nele, ficamos perdidos, sem conseguir se desvencilhar dos impedimentos deste mundo, vivendo em um mundo ilusório, sem atentar para o que é real. Fora da morada não percebemos o lugar maravilhoso que nos aguarda quando encontrarmos verdadeiramente Deus em nosso interior.
“Há muitas almas que estão em torno do castelo, que é onde estão os que o guardam, e que não se interessam em entrar nele, nem sabem o que existe naquele lugar tão precioso.”
Para continuarmos a entrar nas moradas seria necessário abdicarmos de coisas e negócios desnecessários, de diversos prazeres mundanos, de questões particulares que denotam mesquinharias, e que nos afastam de Deus.
Outra frase marcante de Teresa é:
“Pode haver mal maior do que o de não estarmos em nossa própria casa?”
Ela reflete que ficaremos sem esperanças, sem sossego, se nosso interior não nos oferecer paz, tranquilidade, acolhimento, quietude, se estivermos sem a presença de Deus. Por isso a necessidade de buscarmos o autoconhecimento, de conhecermos nossas fraquezas, vulnerabilidades, e de nos empenharmos no bem, de buscarmos a paz em Deus, a quem se refere como Sua Majestade, de estarmos unidos a Ele.
À medida que a pessoa avança nas moradas sentirá que o desejo de amar é mais intenso; ao receber uma vida nova, aos poucos perderá antigos pontos de referência e as seguranças em que estava acostumada. Por isso a necessidade de escolhermos de preferência aquilo que mais nos desperte para o amor e de nos dedicarmos a fazer tudo, desde as coisas pequenas, que chegam a parecer insignificantes, com muito amor e dedicação, pois:
“O Senhor não olha tanto para a grandiosidade das obras quanto para o amor com que são feitas”.
À medida que formos avançando nas moradas, haverá uma dilatação ainda mais profunda do coração e do desejo de estar com Deus. Compreendemos então que a pior das misérias é viver sem Deus, é desconhecer a imensidão de Seu amor por nós, a imensidão de dádivas com que Ele nos presenteia quando O encontramos. Desta forma, nada perturbará o coração, a alma estará em paz, mesmo diante de sofrimentos e adversidades, pois o Senhor caminhará com ela, lado a lado.
A sétima morada (confesso ter devorado as páginas do livro para chegar a esse final), representa o ponto máximo e só é concedida a quem Deus quiser. Para tanto, Teresa indica veementemente o caminho da humildade, a desvencilhar-se da vanglória (a soberba nos desfigura, nos destrói), a praticar o desapego, empenhar-se na oração e nas boas obras. Essa morada representa o momento em que Deus passa a viver dentro de nós. Assim, não estaremos mais sós. Há um encontro, uma transformação total. O Senhor vem nos visitar e permanece conosco. E Ele não permite que o mal nos toque.
Sua Majestade nos oferece a Pax vobis, que é a paz que receberam os discípulos após a Sua Ressurreição.
Nós, seres tão ínfimos, pequenos, em nossa condição e natureza humana não conseguimos alçar as moradas sozinhos, pois não há merecimentos dignos de tão precioso presente, mas Deus, em Sua grandeza, em Sua Misericórdia, vem nos transformar, como a fênix renovada. Mas não significa que deixaremos nossa condição humana, que deixaremos os nossos compromissos terrenos, nossas responsabilidades, que perderemos a consciência. Não é isso. “Deus permanece sempre Deus e a alma permanece sempre a alma”.
Significa que, diante de um amor tão imenso, seremos transformados e, estando na última morada não desejaremos ofendê-lO, seremos caridosos no trato com os outros, em todos os sentidos que representa a caridade, para não entristecer o Senhor.
Nesta morada, receberemos inefáveis bênçãos, como consolos inexplicáveis, em uma felicidade jamais sentida, em uma paz que excede o entendimento, amparados e abraçados pelo próprio Deus.
Professora Drª Maria do Carmo Lincoln R. Paes
Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação.
Email: carmolincoln@gmail.com



